-Boa tarde, sra. Stratford- respondeu Kathryn fazendo uma reverência, como era de costume. Ao levantar sua cabeça trêmula, viu Veronica e suas duas amigas rindo entre si. Sentiu sua boca amarga e chegou à conclusão de que era aquele o gosto do ódio.
-Como você é hipócrita e nojenta. E só tem sete anos. - a sra. Stratford abaixou-se e puxou com violência o cabelo de Kathryn, arrancando mais lágrimas da menina, e um grito. - Não grite, sua órfã nojenta, não sabe que eu odeio barulho?- e com sua mão comprida, fina e gélida, bateu no rosto de Kathryn, deixando uma marca vermelha.
Veronica e suas amigas começaram a rir mais alto do que nunca, e pararam no mesmo instante em que a Sra. Stratford virara e as fuzilara com o olhar.
-E vocês, parem de rir. Risadas estão incluídas na minha lista de "barulhos insuportáveis". Calem-se ou terão o mesmo destino que a senhorita nojentinha. Vão para a capela imediatamente rezar, para retirar a má influência desta garota da alma de vocês.
-Sim, sra. Stratford- responderam as meninas, e de cabeça baixa rumaram até a capela, sem emitir um som sequer.
Kathryn levantara-se, com sua boca ainda tomada pelo gosto amargo do ódio. "Eu DISSE pra você não voltar, sua ESTÚPIDA!! Não acredito... eu não acredito! Você vai ver o que eu vou fazer com você!"
-Sua velha horrorosa- disse Kathryn, cuja voz ficara subitamente fria e sádica. -Sua velha horrorosa, eu te odeio. Eu te odeio, sabia? E eu sei tudo sobre você. Eu sei o que você faz à noite, quando supostamente vai dormir. Eu sei onde você dorme, eu sei o que você esconde embaixo da sua cama, sua falsa cristã. Você diz que eu sou hipócrita e nojenta? Só vejo uma hipócrita nojenta aqui, e é você, Stratford.
-O que você disse?- a sra. Stratford empalideceu, mas logo seu rosto chocado deu lugar à uma expressão de ódio. Kathryn saíra da influência da voz, e quando percebera que tinha dito algo extremamente grave, murmurou alguma desculpa e recomeçou a chorar. - Você... precisa... de tratamento de choque. Se você se mover um centímentro, seu tratamento só irá piorar. Você escolheu a pessoa errada pra destilar o seu veneno, sua víbora.
"Agora bem feito por não me obedecer. Bem feito!", disse a voz para Kathryn. E ela apenas sentou-se e continuou a chorar, sem entender porque a vida tinha feito aquilo tudo para ela. Seus pais a abandonaram, morava num orfanato onde todos a odiavam, não tinha sonhos, não tinha nada - a não ser o livro que ela mesma roubara da Mamãe Ganso- e ouvia uma voz em sua cabeça que lhe dizia coisas terríveis. Não acreditava em Deus, sentia-se culpada por rezar e por mais que tomasse banho, nunca sentia-se limpa. Tinha sete anos e não queria mais viver. Quando percebera que a sra.Stratford voltara, acompanhada do responsável pela educação das garotas, sr. Chikatilo (um ucraniano baixinho, careca de voz fina), o estômago de Kathryn deu várias reviravoltas. Ela estava, de fato, em sérios problemas.
-Sente-se aqui, querida. - disse Chikatilo, após trancar a porta de uma sala escura e que fedia a mofo. Kathryn ouviu gritos que julgava terem vindo das paredes daquele quarto misterioso. Ela obedeceu, sem energias para tremer de medo. -Preciso fazer umas perguntinhas para você. E eu quero que conheça o meu amigo. Ele é um cavalheiro muito respeitado... e gosta de sentir a pele de órfãs rebeldes como você.- Chikatilo mostrou um chicote que parecia ter sido extremamente usado.
Kathryn soltou um sorrisinho sem graça.
-Agora, eu vou recitar uma música. E você vai ter que terminar. Porque eu sei que você conhece essa música. Vamos lá. "Jack and Jill went up the hilll"....
Kathryn silenciou-se. Essa era uma das canções contidas no livro que ela roubara.
-Não vai cantar? -pressionou Chikatilo, colocando o chicote sobre a mesa.
-"Jack and Jill
Went up the hill
To fetch a pail of water."- cantou Kathryn, morrendo de vergonha.
-Isso, minha menina. "Jack fell down..."
-"And broke his crown
And Jill came tumbling after.
Up Jack got
As fast as he could caper
Went to bed
With vinegar and brown paper
-Brilhante, minha menina, brilhante! - Chikatilo começara a rir histericamente, e não hesitou a dar uma chicotada no rosto de Kathryn. Seus olhos azuis de menina abriram-se em choque.-Agora... onde você aprendeu essa música? Não foi a sra.Stratford que lhe ensinou, foi?
Chikatilo dera mais cinco chicotadas nela, que caíra no chão com as energias esgotadas.
-Oh, minha menina- ele disse- estamos apenas começando o jogo. Aqui é um orfanato de moças, e não de feministas rebeldes. Se você não se aplicar às regras, novas regras serão feitas para que estas se apliquem a você. E se isso acontecer, minha menina, você vai se arrepender!- ele continuava a dar chicotadas no corpo mole de Kathryn, que desistira de lutar. Recebia as chicotadas com um conformismo que deixava as vozes em sua cabeça enfurecidas.
-Sabe o que você fará, minha menina? Você dará o seu livro para a sra. Stratford e pedirá desculpas a ela. E todo dia virá até aqui para receber sua punição. E a farei ao estilo de Lizzie Borden.
-L-l-lizzie B-b-b-borden?-Kathryn gaguejou, quase desmaiando.
-Sim, Lizzie Borden. Ora, vai me dizer que nunca ouviu essa canção antes?
- Lizzie Borden took an axe
- And gave her mother forty whacks.
- When she saw what she had done,
- She gave her father forty-one. -recitou Chikatilo, rindo novamente.
