terça-feira, 28 de julho de 2009

Munchausen - 3

-Srta. Dodson.- anunciou a sra. Stratford, com sua voz grave e seca. Usava suas roupas pretas e longas como de costume, e o cabelo cor de palha na mesma trança mal feita e desarrumada.
-Boa tarde, sra. Stratford- respondeu Kathryn fazendo uma reverência, como era de costume. Ao levantar sua cabeça trêmula, viu Veronica e suas duas amigas rindo entre si. Sentiu sua boca amarga e chegou à conclusão de que era aquele o gosto do ódio.
-Como você é hipócrita e nojenta. E só tem sete anos. - a sra. Stratford abaixou-se e puxou com violência o cabelo de Kathryn, arrancando mais lágrimas da menina, e um grito. - Não grite, sua órfã nojenta, não sabe que eu odeio barulho?- e com sua mão comprida, fina e gélida, bateu no rosto de Kathryn, deixando uma marca vermelha.
Veronica e suas amigas começaram a rir mais alto do que nunca, e pararam no mesmo instante em que a Sra. Stratford virara e as fuzilara com o olhar.
-E vocês, parem de rir. Risadas estão incluídas na minha lista de "barulhos insuportáveis". Calem-se ou terão o mesmo destino que a senhorita nojentinha. Vão para a capela imediatamente rezar, para retirar a má influência desta garota da alma de vocês.
-Sim, sra. Stratford- responderam as meninas, e de cabeça baixa rumaram até a capela, sem emitir um som sequer.
Kathryn levantara-se, com sua boca ainda tomada pelo gosto amargo do ódio. "Eu DISSE pra você não voltar, sua ESTÚPIDA!! Não acredito... eu não acredito! Você vai ver o que eu vou fazer com você!"
-Sua velha horrorosa- disse Kathryn, cuja voz ficara subitamente fria e sádica. -Sua velha horrorosa, eu te odeio. Eu te odeio, sabia? E eu sei tudo sobre você. Eu sei o que você faz à noite, quando supostamente vai dormir. Eu sei onde você dorme, eu sei o que você esconde embaixo da sua cama, sua falsa cristã. Você diz que eu sou hipócrita e nojenta? Só vejo uma hipócrita nojenta aqui, e é você, Stratford.
-O que você disse?- a sra. Stratford empalideceu, mas logo seu rosto chocado deu lugar à uma expressão de ódio. Kathryn saíra da influência da voz, e quando percebera que tinha dito algo extremamente grave, murmurou alguma desculpa e recomeçou a chorar. - Você... precisa... de tratamento de choque. Se você se mover um centímentro, seu tratamento só irá piorar. Você escolheu a pessoa errada pra destilar o seu veneno, sua víbora.

"Agora bem feito por não me obedecer. Bem feito!", disse a voz para Kathryn. E ela apenas sentou-se e continuou a chorar, sem entender porque a vida tinha feito aquilo tudo para ela. Seus pais a abandonaram, morava num orfanato onde todos a odiavam, não tinha sonhos, não tinha nada - a não ser o livro que ela mesma roubara da Mamãe Ganso- e ouvia uma voz em sua cabeça que lhe dizia coisas terríveis. Não acreditava em Deus, sentia-se culpada por rezar e por mais que tomasse banho, nunca sentia-se limpa. Tinha sete anos e não queria mais viver. Quando percebera que a sra.Stratford voltara, acompanhada do responsável pela educação das garotas, sr. Chikatilo (um ucraniano baixinho, careca de voz fina), o estômago de Kathryn deu várias reviravoltas. Ela estava, de fato, em sérios problemas.

-Sente-se aqui, querida. - disse Chikatilo, após trancar a porta de uma sala escura e que fedia a mofo. Kathryn ouviu gritos que julgava terem vindo das paredes daquele quarto misterioso. Ela obedeceu, sem energias para tremer de medo. -Preciso fazer umas perguntinhas para você. E eu quero que conheça o meu amigo. Ele é um cavalheiro muito respeitado... e gosta de sentir a pele de órfãs rebeldes como você.- Chikatilo mostrou um chicote que parecia ter sido extremamente usado.
Kathryn soltou um sorrisinho sem graça.
-Agora, eu vou recitar uma música. E você vai ter que terminar. Porque eu sei que você conhece essa música. Vamos lá. "Jack and Jill went up the hilll"....
Kathryn silenciou-se. Essa era uma das canções contidas no livro que ela roubara.
-Não vai cantar? -pressionou Chikatilo, colocando o chicote sobre a mesa.
-"Jack and Jill
Went up the hill
To fetch a pail of water."- cantou Kathryn, morrendo de vergonha.
-Isso, minha menina. "Jack fell down..."
-"And broke his crown
And Jill came tumbling after.

Up Jack got


And home did trot
As fast as he could caper
Went to bed
And plastered his head
With vinegar and brown paper
"- terminou Kathryn, de olhos fechados e com o rosto torcido, como se estivesse sendo torturada.
-Brilhante, minha menina, brilhante! - Chikatilo começara a rir histericamente, e não hesitou a dar uma chicotada no rosto de Kathryn. Seus olhos azuis de menina abriram-se em choque.-Agora... onde você aprendeu essa música? Não foi a sra.Stratford que lhe ensinou, foi?
Chikatilo dera mais cinco chicotadas nela, que caíra no chão com as energias esgotadas.
-Oh, minha menina- ele disse- estamos apenas começando o jogo. Aqui é um orfanato de moças, e não de feministas rebeldes. Se você não se aplicar às regras, novas regras serão feitas para que estas se apliquem a você. E se isso acontecer, minha menina, você vai se arrepender!- ele continuava a dar chicotadas no corpo mole de Kathryn, que desistira de lutar. Recebia as chicotadas com um conformismo que deixava as vozes em sua cabeça enfurecidas.
-Sabe o que você fará, minha menina? Você dará o seu livro para a sra. Stratford e pedirá desculpas a ela. E todo dia virá até aqui para receber sua punição. E a farei ao estilo de Lizzie Borden.
-L-l-lizzie B-b-b-borden?-Kathryn gaguejou, quase desmaiando.
-Sim, Lizzie Borden. Ora, vai me dizer que nunca ouviu essa canção antes?
Lizzie Borden took an axe
And gave her mother forty whacks.
When she saw what she had done,
She gave her father forty-one. -recitou Chikatilo, rindo novamente.
"Sua... inútil".- fora o que Kathryn ouvira da sua voz maldita após ser deixada deitada, sangrando, dolorida e chorando sozinha por Chikatilo naquela sala maldita.

Um comentário:

  1. Fico pensando... Se é assim que você se sente, e não apenas resultado de uma paixão por escrita. Estou errada?

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