-Mas eu não sei cantar-respondeu Kathryn, com seus olhos azuis muito abertos.
-Cante, ou contaremos para a sra. Stratford que você não quer... calma, qual era aquela palavra grande e bonita que ela disse quando estava te dando uma surra? - Veronica largou a corda e levou a mão aos lábios, numa pose sensual demais para uma garotinha de sete anos. -Ah lembrei! Eu vou dizer para a sra. Stratford que você não quer se socializar!
A quieta Kathryn percebeu seu corpo estremecer com a simples menção do nome da assistente social e encarregada do orfanato. A sra. Stratford era alta, magra e monstruosa e odiava-lhe. Batia constantemente em Kathryn por ela não conseguir conviver com os demais órfãos e por não cativar os casais que pretendiam adotar crianças. Todos eles passavam por ela com medo do olhar depressivo dela. "Ela é séria demais para ter quatro anos", e todos repetiam a mesma coisa ao passar dos anos. E quanto mais velha Kathryn ficava, menos casais interessavam-se nela. E maior era o ódio da sra. Stratford. E mais profundas eram as cicatrizes. E os gritos à noite...
-Tá, eu canto. A única coisa que eu sei cantar.- ela abriu a boca, incerta, os lábios tremendo ao pronunciar os versos de uma canção que ela vira num livro.
Sua voz era límpida, afinada e adulta demais para sua precoce idade. Mas o que assustou de fato as meninas não era a sua habilidade impressionante, e sim o que ela cantara.
Era uma vez uma velha que tinha três filhos
Jerry, James e John.
Jerry foi enforcado e James se afogou.
John se perdeu e nunca foi encontrado.
E assim se acabaram seus três filhos,
Jerry, James e John.
-Onde você leu isso?-perguntou Veronica, assustada. Sua pose de durona desaparecera rapidamente e esvanecera-se pelo ar.
-Num livro da Mamãe Ganso.
-E onde você encontrou esse livro, sua louca?- a garota morena se afastava cada vez mais de Kathryn.
-E-e-e-eu... ganhei...de...aniversário....-enquanto os olhos de Kathryn começavam a encher-se de lágrimas, Veronica e suas amigas saíram correndo. Ela, que era ingênua mas não era idiota, correu para a direção oposta. Sabia o que iria acontecer. Chamariam a sra. Stratford e contariam tudo sobre o livro proibido.
Enquanto Kathryn corria, ela tentava lutar contra duas coisas simultaneamente: contra as lágrimas que teimavam em queimar sua face rosada, e contra aquela voz. Aquela maldita voz que lhe dizia coisas malditas e que lhe ordenava coisas malditas. Fora a voz que lhe mandara roubar o livro da Mamãe Ganso, fora a voz que colocara aquela música em particular em seus lábios, fora a voz que lhe dissera para ameaçar a única mulher que tentara lhe adotar, e era a voz que lhe dizia naquele instante para correr. "Corra, corra, sua inútil! O que você vai fazer, se não correr? Vai deixar que uma velha esquelética e frígida controle a sua vida? Você tem que sair daqui, Kathryn, tem que ir para um lugar onde realmente cuidem de você. Onde realmente cuidem de uma maluca feito você. E você sabe para onde as garotinhas loucas e insanas vão, não sabe?"
Claro que Kathryn sabia. Seus pés pararam numa freada brusca, com tanta violência que seu corpinho fraco quase foi ao chão. Kathryn sabia exatamente para onde garotas insanas- exatamente como ela- paravam. E esse lugar lhe causava mais calafrios do que qualquer maluca que abusasse de sua autoridade, como a sra. Stratford. Era a possibilidade de viver num lugar daqueles que fazia sua vivência no orfanato quase abençoada.
"Para onde você está indo?"
Kathryn começar a correr novamente, mas no caminho oposto. Corria de volta para o orfanato. De volta para as surras da sra. Stratford, de volta para as brincadeiras de péssimo gosto de Veronica, de volta para a humilhação pública, de volta para a maldita voz que preenchia sua cabeça sem que ela tivesse pedido por isso.

Nenhum comentário:
Postar um comentário