segunda-feira, 27 de julho de 2009

Munchausen - 1

-Deixa eu ver essa menina direito - disse a mãe, ainda fraca pela dor do parto. Seus braços ansiavam pelo corpo recém-nascido de sua filha, que tanto batalhara para sair de seu útero. -Me deixa....
-Pronto, madame, aí está a sua filha- respondeu a enfermeira, que cobriu a menina com um lencinho rosa. A mãe segurou a menina ardorosamente, e após fitar seus olhos azuis por alguns segundos, anunciou em alto e bom som:
-Essa garota está doente.
-Faremos alguns exames, mas nossa primeira impressão é de que ela possui saúde plena.- disse o médico, carinhosamente.
-Ela está doente. Revirem essa garota de cabo a rabo, ela deve ter alguma coisa. Nenhum bebê nasce cem por cento saudável. Só quero essa garota no meu colo quando eu tiver a certeza do que ela tem- e a mãe entregou a filha para o médico, com violência. Virara o rosto demonstrando claro despeito.
O médico deu algumas ordens, falando baixinho de modo que apenas outros médicos e enfermeiros pudessem ouvi-lo. Levaram a mãe para seu quarto na maternidade, onde esperaria pelos resultados dos exames. Ela parecia confiante e nem um pouco preocupada com a saúde da filha. Os enfermeiros ficaram espantados com a decoração que ela tinha preparado. Balões cor-de-rosa espalhados por todo o quarto, vários coelhinhos de pelúcia brancos enfeitando escrivaninhas, gabinetes e prateleiras, e um estranho relógio prateado prostrado exatamente na frente da cama da mãe.

Tic-Tac. Tic-Tac. Tic-tac.

Eles estão chegando. Eu tenho que ir embora. O jogo acabou, o jogo acabou. O que ele havia dito mesmo? 'Comece pelo começo, siga até chegar ao fim e então, pare'
Tanto faz, tanto faz agora.... O nome dela não pode ser o nome do jogo, não, eu tenho que escolher outro nome... Escreva o nome no papel, RÁPIDO, RÁPIDO!

Os médicos bateram na porta três vezes. Ninguém atendeu, logicamente. Então um deles teve a brilhante idéia de abrir a porta com a chave-mestra. E se surpreenderam ao ver o quarto vazio e a janela aberta, com a cortina esvoaçando conforme o vento lhe mandava. Havia apenas um papel remanescente daquela mãe: "Kathryn Dodson". Aquele deveria ser o nome da menina. E foi.

-Bem vinda ao mundo, Kathryn Dodson. - disse a médica que lhe segurava no colo. Ela se virou para outro médico. - E agora?
-Já emiti um mandado para procurarem a mãe pela região. Isso é estranho, pois ela deixou endereços e números de telefone e referências...
-Todas falsas-respondeu uma enfermeira, que chegara correndo até o quarto da mãe desaparecida. Os nomes, números e endereços que ela deixou são falsos. Não existem.
-Que tipo de mãe é essa? Tem a filha e depois a abandona?
-Temos sorte que ela não fez o parto sozinha e deixou a filha num saco de lixo boiando no rio-disse o médico responsável por Kathryn.
-Ela é saudável, não é?-perguntou a médica.
-Sim. Até demais.
-É um horror ter que deixá-la num orfanato. Preferiria adotá-la, mas minha ética como médica não me permite...
-Fazer o quê. Essa menina teve azar.-respondeu o médico, frio.- Vamos.
Eles levaram a recém-nascida Kathryn para o berçário, onde recebia uma inusitada atenção daqueles que visitavam o local. Perguntavam quem era ela, e quem era sua mãe- que deveria ser parabenizada, pois Kathryn era linda e sorridente... E logo ficavam decepcionados ao saber que em poucos dias a assistente social a levaria pois sua mãe a abandonara.

-Aonde está a criança?- perguntou uma mulher alta e esquelética, vestida toda em roupas negras, com o cabelo cor de palha preso numa trança mal-feita.
-Que criança?-perguntou a recepcionista com um sorriso nos lábios.
-Kathryn Dodson-ela respondeu, seca.
-E quem a senhora seria?
-Sra. Stratford, Assistente Social do Orfanato para Crianças de Londres.
-Posso ver a sua identificação?-pediu a recepcionista, mas após receber um olhar intimidador da sra. Stratford, digitou algumas palavras no computador e deixou que ela entrasse. Duas horas depois, a imponente senhora saiu do hospital com uma mochila rosa e a linda bebê Kathryn, que chorava acanhadamente. A recepcionista, de nome Alice, esperou um pouco para chamar o próximo paciente e rezou discretamente pelo futuro de Kathryn.

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